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01/08/2007 - 11h44
Estou cansado de tantos protestos inócuos
Não sou entusiasta destes movimentos ou protestos que mais calam do que falam. Atualmente há dois sendo anunciados. O primeiro é o "Protesto da fita preta", que consiste em convidar todos os brasileiros a protestarem amarrando uma fita preta na antena de seus carros. Os brasileiros que têm carro, é lógico. O outro, é o movimento "Cansei", que prega a realização de 1 minuto de silêncio, no dia 17 de agosto, às 13h. Como se já não houvesse silêncio o bastante neste país. Este último, mais organizado, é apoiado por diversos organismos e divulgado na mídia, tendo inclusive um blog. Outros movimentos deste tipo já circularam país afora: "Nariz de palhaço contra a corrupção", "Fita vermelha contra a aids" (aliás, tem um movimento para cada tipo de cor de fita existente), "Encha a caixa de e-mail de um parlamentar", etc, etc, etc...

Nada contra os movimentos. Mas tem sempre que ser assim, com esse ar de filosofice? Quando é que começam os protestos do tipo que - de fato - atingem o governo? Não sou a favor de badernas. Sou defensor do Estado de Direito (como todo cidadão que se preza) e do respeito às autoridades constituídas. O que não significa que eu não possa agir contra os desmandos destas mesmas autoridades. Individualmente, cada um exercita este direito da melhor maneira que pode. Mas, em sociedade, só há uma maneira de se fazer isto: coletivamente. Sei que parece redundância e talvez até seja, mas é que parece que a sociedade brasileira está fragmentada, cada um por si e todos no mesmo buraco. É preciso unidade de pensamento. É preciso massa crítica. Só assim os protestos serão pra valer e surtirão efeito. Sem baderna, sem falta de respeito, mas com veemência, com firmeza e direto ao ponto. Infelizmente, ao que parece, não há ânimo nem mesmo para abrir a boca.

Cadê toda a coragem dos estudantes de 1968, na luta contra a ditadura?
Onde está aquela força que milhares tiveram em 1984, durante a campanha "Diretas já"? O que fazem hoje os jovens que, em 1992, com seus rostos pintados, participaram do "Fora Collor"? Onde estão os grandes comícios e manifestações em que políticos, intelectuais e a classe artística se envolviam e conseguiam mobilizar a população por um ideal? O que mais estamos esperando? Que lancem então a campanha "Moralidade já!" e envolvam o povo nisto. Mas façam de verdade, pois não se mexe com os brios do brasileiro apenas exibindo atores desconhecidos levantando plaquinhas na TV. Não é de silêncio que o Brasil precisa. Em silêncio o Brasil já está! O que meu país precisa é de atitude. Minha atitude. Sua atitude. E atitude, amigos, não é um fitinha amarrada na antena do carro, nem míseros e taciturnos 60 segundos de omissão silenciosa.





21/05/2007 - 14h22
Democracia
Gosto de votar. Gosto mesmo. É rápido, fácil e sem burocracia. Parece até propaganda de financeira. Mas, tal qual pegar dinheiro em financeira, as circunstâncias é que aborrecem. Pra começar, tem que ser justo no domingo? Eleição deveria ser na segunda-feira. Pensem bem: o cidadão acordaria tarde - chinelão nos pés - se arrastaria até a seção eleitoral pra votar rapidinho e depois teria a segunda-feira inteirinha de folga. Maravilha, né não? Outro problema com as eleições é o local. É sempre fechado, quente e pouco ventilado. Sem falar que invariavelmente tem mais gente que espaço. Eu mesmo já votei numa quadra de esportes de uma escola. A lotação completa das arquibancadas, elevada ao cubo, estava lá. Haja oxigênio...

Em certa ocasião, enquanto esperava minha vez naquela que é o símbolo máximo desta nação - a fila - o pensamento vagava por entre palavras como cidadania, civismo, democracia e no quanto elas são importantes, principalmente em nosso país, onde poucos sabem o que significam. Fiquei ali, conversando comigo mesmo em pensamento (não, eu não sou louco, e sim, você também faz isso), me considerando um privilegiado por ser um patriota inveterado (por influência de meus pais, a quem sou grato também por isso). Dizem que patriotismo nesse país, só em Copa do Mundo. Não é verdade. Brasileiro é patriota por vocação. Canta o hino com orgulho, veste o verde e amarelo, pinta a cara, adora esse país. O problema é que ele não assume essa condição patriótica natural, simplesmente por vergonha. É como ser honesto e bom hoje em dia. Muita gente é, mas tem vergonha de dizer. Infelizmente.

Mal sabia eu que meu dia se tornaria tão diferente do que havia planejado. Tava lá, contente por poder exercer o meu direito cívico, observando o movimento das filas (dos outros, é lógico, porque a minha não se movia de jeito nenhum), quando vi que uma mulher me olhava de lá do outro lado da quadra. Disfarcei. Mudei a direção do olhar, mas não teve jeito: ela começou a atravessar a quadra, vindo em minha direção. E a danada tinha um sorriso maroto nos lábios. Não, não é desse tipo de sorriso que vocês estão pensando; é do tipo que a gente dá quando tá aprontando com alguém, sabem? Fingi que não percebi. Afinal eu não sabia se era pra mim ou de mim que ela tava sorrindo. Não sabia, mas logo fiquei sabendo: era a segunda alternativa. Ela era da Justiça Eleitoral e veio me convocar a assumir a vaga de um faltoso. Foi logo dizendo, em tom solene (e já sem o sorriso maroto): “Bom dia. O senhor está sendo convocado neste momento para compor a mesa de votação, por se enquadrar no perfil desejado. Por favor, me acompanhe”.

Confesso que, de imediato, só entendi até o “bom dia”. Demorei alguns segundos para processar o resto. Deve ter sido algum bloqueio mental por causa do susto. Quando a ficha caiu, quase não acreditei. Pensei no meu domingo, todo esquematizado, na chatice de ficar sentado naquele lugar quente, na minha família que estava em casa, me esperando. Confesso que passou pela minha cabeça recusar a oferta. Mas desisti ao lembrar que caso não atendesse poderia até ser preso (pois é, meus amigos, isso ainda acontece, mesmo após o fim da ditadura). Tentei descobrir qual era o tal “perfil desejado” no qual eu (supostamente) me enquadrava (pra não incorrer no mesmo erro nos anos vindouros). Varri com os olhos toda a fila e não foi difícil avaliar: quem não estava de bermuda, estava de sandálias de dedo; quem não estava de camiseta, estava com barba por fazer e cara de sono. E eu, de calça comprida, sapatos, barba feita, limpinho e aparência disposta, como me ensinou meu avô: “Votar é uma honra, meu filho. Sua roupa e sua atitude demonstram seu respeito”. Tá certo, vovô. Só me restou, como você sempre disse, “atender ao chamado da democracia”.





16/05/2007 - 12h53
Paixão (pela) crônica
Como disse um colega, “escrever poderia ser um negócio bem mais fácil. Bastava não ter alguém do outro lado para ler”. É verdade.
Será que essa palavra está adequada? Será que o pessoal vai gostar? O que foi mesmo que a professora disse sobre concordância? As interrogações são muitas e, até a crônica sair, haja unha pra roer. Mas o que deixa meus dedos no cotoco mesmo é a escolha do tema. Não que seja difícil encontrar algo sobre o que falar, muito pelo contrário. Pra todo lado que olho – e até pra onde não olho – vejo assuntos que dão uma crônica. Difícil é decidir sobre qual deles escrever. É como se me colocassem diante de um banquete e me dessem o privilégio de oferecer uma iguaria a vocês. Só uma, a mesma, para todos. Mas qual? Tem gente que gosta de doce. Outros, de salgado. “Ah, então pega um desses pratos exóticos, que mistura tudo com tudo, e tá resolvido”, me diz um amigo simplista. Talvez...
Jornalista que se preza sabe que suas ferramentas básicas de trabalho são papel e caneta. Eu mesmo ando sempre com essa dupla dinâmica no bolso. Vou à feira? Papel e caneta. Passear no shopping? Caneta e papel. Pode parecer exagero, mas até à pelada com a turma levo minha Bic e uma folha A4 dobrada em 8 partes (acho mais cômodo que o velho bloquinho). Uma olhadinha – ou ouvidinha – e pronto: lá vem a idéia! É claro que, dependendo do lugar, não dá pra fazer o texto na hora. Aí, a solução é anotar palavras que façam sentido e montar o quebra-cabeça depois. Tá certo que depois nem sempre consigo decifrar os garranchos por completo, principalmente se escrevi em pé dentro de um ônibus em movimento (com um pouco de treino vocês conseguem). Nesses casos vale a técnica de associar situações vividas, frases conhecidas, imagens e até mesmo pessoas, ao assunto. É uma espécie de hiperlink mental que ajuda muito.
Outra coisa essencial, a quem deseja enveredar pelos caminhos crônicos do jornalismo, é a transpiração. Há pessoas que acham que basta sentar diante do computador e o escritor recebe uma carga de inspiração capaz de fazê-lo digitar todo o texto de uma só vez. Como diria o matuto: ai, ai, se sesse... Para ter a tal carga de inspiração, tem que transpirar. E muito. Estar em contato com pessoas, andar de olhos e ouvidos atentos, ler muito e queimar muitos neurônios até que a idéia surja afinal. E depois do texto pronto, tome revisão. É um tal de mudar vírgula de lugar, substituir palavra por um sinônimo, conferir a concatenação das frases... Quando finalmente estiver tudo certo, é só enviar o texto para a redação e pronto. Acabou. Quer dizer... Quase... Ainda tenho que ficar aqui, roendo o que sobrou dos dedos e torcendo pra vocês gostarem. Gostaram?




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